Sobre Esconderijos: a criança e a morte
Esconderam a morte. Fecharam as portas e as cortinas. Entenderam que pequena como era não saberia colocar legendas na dor. Seu pai não voltou. Quando ele se foi levou junto as brincadeiras, o sorriso, a conversa boba, todas essas coisas que a infância pede e que nos lembram que somos crianças.
O amor vazava do coração, espiava pelos olhos, ouvidos, boca e esperas. Nos horários de sua chegada corria para a porta, sentava-se e aguardava. Era tanta espera que achou por bem aliar-se ao sol, nas horas em que este ameaçava deitar-se caminhava seus olhos para um caminho sem chegadas. Sentava-se e esperava.
Aguardava seu pai como quem espera as pernas alongarem, o cabelo crescer, os ombros caírem. Dessas esperas que parecem uma mistura de lonjura e proximidade, lugares onde o relógio não existe, as estações do ano se tornam uma só.
Esperou por seis longos anos. Nesse tempo mudou de voz, de roupa e de expressão. Descobriu que não haveria chegada quando a mãe apareceu com o namorado. Acompanhada dos seus vazios travou conversas solitárias. Menina, sabia pouco das chegadas e partidas da vida, mas o choro que veio do coração sussurrou que não poderia mais viver esse amor através dos olhos.
O desamparo residiu muito tempo em sua vida, fruto dessas gestações em que impedimos que nossos filhos saibam das tristezas e dores da vida, inquilino dessa mania de protegermos ou desconsiderarmos que crianças precisam de mãos entrelaçadas para compreenderem os desatinos, as chegadas e partidas.
Não viramos estrelinhas, partimos. Falar da morte é falar da vida e de tudo que acompanha esse “pacote”, dar passagem para a tristeza é um modo de conversarmos com os dias de sol e fazermos as pazes com os dias nublados. Com as permissões do amor vamos dar licença para a dor.
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