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quarta-feira, 30 de setembro de 2015


Sobre Esconderijos: a criança e a morte

Esconderam a morte. Fecharam as portas e as cortinas. Entenderam que pequena como era não saberia colocar legendas na dor. Seu pai não voltou. Quando ele se foi levou junto as brincadeiras, o sorriso, a conversa boba, todas essas coisas que a infância pede e que nos lembram que somos crianças.

O amor vazava do coração, espiava pelos olhos, ouvidos, boca e esperas. Nos horários de sua chegada corria para a porta, sentava-se e aguardava. Era tanta espera que achou por bem aliar-se ao sol, nas horas em que este ameaçava deitar-se caminhava seus olhos para um caminho sem chegadas. Sentava-se e esperava.

Aguardava seu pai como quem espera as pernas alongarem, o cabelo crescer, os ombros caírem. Dessas esperas que parecem uma mistura de lonjura e proximidade, lugares onde o relógio não existe, as estações do ano se tornam uma só.

Esperou por seis longos anos. Nesse tempo mudou de voz, de roupa e de expressão. Descobriu que não haveria chegada quando a mãe apareceu com o namorado. Acompanhada dos seus vazios travou conversas solitárias. Menina, sabia pouco das chegadas e partidas da vida, mas o choro que veio do coração sussurrou que não poderia mais viver esse amor através dos olhos.

O desamparo residiu muito tempo em sua vida, fruto dessas gestações em que impedimos que nossos filhos saibam das tristezas e dores da vida, inquilino dessa mania de protegermos ou desconsiderarmos que crianças precisam de mãos entrelaçadas para compreenderem os desatinos, as chegadas e partidas.

Não viramos estrelinhas, partimos. Falar da morte é falar da vida e de tudo que acompanha esse “pacote”, dar passagem para a tristeza é um modo de conversarmos com os dias de sol e fazermos as pazes com os dias nublados. Com as permissões do amor vamos dar licença para a dor.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Amanhecer na saudade: despedidas e chegadas

Eu te amo, e de tanto amar, amanheço na sua ausência. Amanheço devagar, nessa certeza que não adianta pressa nos vazios. Faço as pazes com Deus molhando as plantas do meu quintal, sentindo o cheiro do café que faço, rindo quando te acho no meio das coisas da nossa casa.
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Remexo nessas coisas, como se quisesse dar um jeito nas minhas incertezas. Te encontro nas miudezas dos meus dias. Faço pausas e me demoro nas fotografias, lugares que falam de tudo o que fomos, fico ali, passeio nas suas andanças por esse mundo, nas suas descobertas, comemorações de dias que escorregaram do meu contato, mas não do meu olhar.

Amanheço nos dias em que encontro ouvidos generosos, falo de você, uma fala que mistura riso e choro. Reviro esse desassossego, dou um sentido pra minha dor, sem pressa. Ali, horas tecendo histórias, parece que a luz entra no meu coração, te dou vida nessa despedida lenta, que mistura outro jeito de chegar.

Outros dias, amanheço arrumando seu quarto, nossa casa. Coloco aquelas músicas que você amava, aprendo a cantar, trago você pro meu mundo de um jeito delicado. Choro e canto, descobrindo seu coração nas canções que você cantava.

Meu amor, amanheço quando não findo esse amor, deixar você partir deixaria tudo muito escuro e eu preciso de sol, preciso de galo cantando na minha alma, de cheiro de café e de flores com sede. Amanheço, nos dias em que não nego sua partida, mas inauguro sua chegada nessas delicadezas, nas ruas da minha alma e dos meus dias, nesse amor infindável...
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Teresa Gouvea https://www.facebook.com/teresa.gouvea.5

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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Sobre Despedidas: dizendo adeus


Tinha dificuldade nas despedidas. Sim, sabia abanar lenços, fechar portas, tomar um banho e dormir. Difícil mesmo era não se sentir amada daquele jeito que ele ensinara. Andava pela casa procurando vozes, passos e sinais, procurava essas miudezas que lhe diziam sobre o desenrolar suave da vida. Achava o amor dele parecido com canto de passarinho, folha de outono, cheiro de café, sol nas flores, brisa nas árvores, cheiro de chuva.
Depois que ele partira, os sons ficaram diferentes. Ouvia o barulho do relógio, dos carros, ouvia o riso lá fora, longe, parecia tudo de outro mundo, achava tudo estranho. Amava tudo isso, essas coisas cotidianas, mas sentia falta das mãos, dos olhos, do sorriso. Sentia falta da porta se abrindo, da bagunça, daquela vida suave. Procurava, procurava e, estranhava, só conseguia encontrar o seu amor no silêncio. 
No silêncio aprendeu outro jeito de amar, como se comungasse com alguém muito maior e Ele, bondoso que era, lhe devolvesse as memórias de tudo que havia sido bom. Dormia abraçada com suas memórias e, nessas horas, no meio da dor, até paz sentia. No silêncio aprendeu outro jeito de amar, quem partiu e quem ficou...

(Teresa Gouvea)

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sexta-feira, 27 de março de 2015

Sobre hoje mesmo
(Teresa Gouvea)

Nessa estrada que chamamos vida,
passagens, onde o coração se entristece,
tanto, que pensamos não ter amanhã,
tanto, que esquecemos de repousar,
ficar em silencio, procurar ajuda dentro da gente,
fazer as pazes com todas aquelas coisas que sonhamos,
aquelas deixadas para o dia seguinte,
dias que nem sempre acontecem,
ternuras esquecidas nos esconderijos da nossa alma,
engavetadas, porque obedecemos o relógio,
nessa pressa toda, que faz a gente se perder,
cega nossos olhos, amarra nossas mãos,
emudece nossa voz pras coisas que acontecem aqui,
faz a gente pensar no tempo futuro até pra amar,
Senhor, nem sempre o futuro é amanhã,
às vezes é hoje mesmo...

terça-feira, 24 de março de 2015

Sobre dias assim...

Dias assim pedem paciência, esperança e fé,
pedem janelas abertas, vento nas cortinas,
travesseiro macio, cama confortável,
roupa balançando no varal,
pedem avós e mães, vontade de colo,
estradas, daquelas repletas de árvores, oxigênio,
pedem o relógio parado, pausa, tempo perdido,
suspiros acompanhados de lágrimas,
lugares bons, amores que confortam, alma,
café quente e tempo, Senhor, tempo,
dias assim pedem paciência, esperança e fé...
(
(Teresa Gouvea)
Sobre o quarto, a casa, o coração...
Meu amor, meu lugar de paz e ternura,
O que faço das minhas mãos que não encontram mais as suas?
Dias e meses sem recolher suas roupas, armários vazios,
tapetes sem calçados espalhados,
Nossa! Copos nos lugares certos,
como se esperassem seus esquecimentos,
pequenos relatos de seus passeios pela nossa casa...
Meu amor, o que faço ao passar pela porta do seu quarto?
Roupas que ainda guardam seu cheiro,
anotações de pequenas grandes verdades da vida,
livros , cds e filmes calados, tristonhos,
ali, espiando suas paixões pela ruas da vida...
Como entrar nesse universo tão seu,
me despedir do nosso futuro, fazer as pazes com o passado ?
Sim, inaugurar nossas histórias, impedidas, na memória,
entender que tudo é nada perto de vazios tão profundos,
entender que tudo escorre, nada se leva nas mãos,
as coisas mais caras são carregadas no coração...
(Teresa Gouvea)